Considerações sobre ter 80 anos – (mas eu não tenho)

Na semana passada assisti a uma palestra interessantíssima da Suzana Amaral – diretora de “A hora da estrela” (1985) – sobre cinema e literatura, e a obra de Clarice Lispector, parte do curso da Maria Lúcia Homem no MIS (que durante o curso também integrava à interpretação aspectos da psicanálise). Achei que seria bom porque gosto de literatura, porque gosto de cinema, porque gosto de A hora da estrela da Clarice, mas principalmente porque gosto muito da adaptação da Suzana.

Adaptação pra cinema é uma das coisas mais enganosas que existem. Quase tanto quanto tocar pandeiro (mas isso é outra história, de que todo brasileiro acha que sabe tocar pandeiro…). Caí na armadilha com o meu trabalho de conclusão do curso de cinema: um roteiro de longa, mas que não daria tanto trabalho porque era só uma adaptação. Amarga ilusão. Adaptação literária é algo deliciosamente trabalhoso, algo que só conseguimos superar ao perceber que, sim, vamos ter que mudar a história – sob a pena de não conseguir atingir a essência do que foi passado pelo escritor.

Pois a Suzana Amaral, além de ter essa percepção aguda (e muito mais bem desenvolvida que a minha) em relação a literatura e cinema, ainda tem o tom enfático e extraordinário das pessoas de 80 anos (no caso dela, 81).  – Suzana como foi seu processo? – Intuição. – E como você faz… – Intuição. – E o que você acha… – Intuição. “Você tem que fazer o que você quer, e o que você não quer você não faz.” Ela não chama de “essência” e sim de “espírito”, nem de “adaptação”, mas sim de “transmutação”.

Lembrou-me a Lygia Fagundes Telles (de quem vi uma fala no ano passado), falando de modo tão certeiro sobre vocação, nesse mesmo limite de fazer no mundo o que lhe cabe. E com a mesma certeza. “Eu me fiz dentro do cinema”, contou a Suzana, que diz que estava na área já desde os sete anos, e começou a estudar com 38, na ECA – o que fez dos 7 aos 38? “Tive filhos!” Foram 9, ao longo de 10 anos – experiência adquirida suficiente pra conseguir lidar com qualquer ator, segundo ela.

Foi contando então, com seu jeito de oitenta anos (esse jeito de ter certezas que vem somente da emoção) como é seu processo criativo, de como nunca categorizou as coisas: “a preocupação da ideia é ter ideias. O negócio é trabalhar e pensar, pensar, pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir”, “eu fui fazendo, e quanto mais eu estudava mais eu encontrava o meu caminho.” E eu – fui me encantando com a possibilidade de ter 80 anos. Não sei se chego, mas ia gostar muito de chegar. Um professor (de viola, mas isso é outra história…) me disse sobre o estudo que aos poucos eu vou ter que ter menos aulas, por perceber o mundo de coisas que é preciso aprender e entender, e precisar de mais tempo para processar cada informação. “Quanto mais velho eu fico menos certezas eu tenho”.

Tentei até levar pra terapia: eu queria ter 80 anos! Mas isso é só mais um jeito atrapalhado de ter vinte e poucos – que, com todas as certezas tolas que aprendemos, é preciso aproveitar.

Sobre os gatos e a vida dos freelas

Ninguém sabe ao certo porque os gatos dormem tanto – mas uma hipótese, e tanto, é de que eles guardam o máximo de energia para suas caçadas. Explica muito para quem tem um gato: não raro eles acordam e correm inexplicavelmente e inexplicavelmente rápido pela casa. Dessa forma, dizem os especialistas, o ataque é certeiro.

Duas coisas nessa semana me lembraram a lógica dos gatos:

A primeira foi a entrevista da Clarice Lispector para a TV Cultura de 1977: “não sou profissional”, ela diz.  “Eu só escrevo quando eu quero. (…) Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou em relação ao outro. Eu faço questão de não ser uma profissional, para manter minha liberdade”. Depois descreve os períodos alternados entre a produção intensa e hiatos. Lembrei imediatamente do Fernando Sabino − que sempre dizia que o que atrapalhava seus romances era a necessidade de escrever para ganhar dinheiro −: “às vezes eu penso que eu não sou escritor, inventaram que eu sou escritor, porque eu não tenho a menor facilidade de escrever” (em entrevista ao Roda Viva, 1989). Que eram escritores, eram − o que faltava era essa noção (e que noção seria?) de trabalho.

A segunda coisa foi uma notícia que saiu − notícia assustadora − que gente com 20 e poucos anos trabalha de graça, e em jornadas exaustivas, com vistas às promoções e agraciamentos futuros. Já ouvi gente dizer (não sei se concordando, mas constatando) que roteirista novo não pode cobrar. Porque o que vale é o nome, não o roteiro. Se o aluguel é mais barato pra gente jovem, ou a comida, ou o mercado, ou o transporte, e etc e tal, concordo. Mas não é.

É uma visão positivista e da sociedade moderna, que perdura ainda hoje. Seja pra desvalorizar o processo criativo, seja para hiper-valorizar a honra do trabalho, as duas situações tem a ver com essa visão de que muito esforço, de preferência contínuo e dosado, traz uma recompensa garantida. Sou mais a vida dos gatos.

Em ritmo de aventura

Ouro Preto é um mistério. Andar por lá é se perder – geográfica e sentimentalmente, em uma cidade mágica, feita entre ladeiras e pedras, equilibrada apenas pela imponência estonteante de suas igrejas. Uma das inúmeras vezes em que me perdi por entre seus sinos e ladeiras, encontrei uma mulher de Uberlândia que vive há 20 anos na cidade e disse que até hoje não consegue entendê-la.

Ouro Preto é assim, você desce uma ladeirinha pra ver o que tem ali e o resto da vida é só subida. E a outra coisa é que você vê uma igreja láaaa longe, aí vai seguindo, vai seguindo na direção dela, vai seguindo… e quando chega, ela mudou de lugar! Mariana, a cidade vizinha, é de uma beleza mapeável e talvez só por isso não tão bonita. Tem como maior trunfo um céu de tom inigualável no mundo (não se sabe, por lá, o que acontece – faz parte do clima de mistério mineiro, de certo). Pois vivo eu num namoro entre São Paulo e Minas Gerais, cercado das montanhas e desses mistérios.

Ia embora triste, nessa última visita, segurando o choro nas horas finais antes da despedida. O ponto na “Lanchonete Du Ponto” (a bem da verdade quase um bar) me levaria de Mariana a Ouro Preto, e dali de volta para São Paulo. Na lanchonete se vende passe, os ônibus passam e a vida passa sem dó. (de Mariana a Ouro Preto a tarifa aumentou e o passe diminuiu! No bilhete vem escrito: “Vale Transporte Ouro Preto à Mariana & vice versa” (sic)!) Paramos no ponto, eu e meu bem – quando o dono do bar coloca bem alto nos alto falantes um Roberto Carlos: “De que vale tudo isso, se você não está aqui”… Nos tecladinhos tenros até semáforo, rua, montanha, nós, tudo, parecia dançar. Não contive o choro.

Depois da música não colocou mais nada, o dono do bar.

É belo o Brasil

* esse texto não é uma crítica de “O som ao redor”

“O Som ao Redor” não é um filme sobre o Recife, mas é também. É daí que vem a sua beleza, a sua força e a contundência de sua crítica. É um filme que fala de todos nós, do excesso de grades, da urbanização desenfreada – do medo da classe média e da nossa elite, da convivência em bairro e da grana que ergue. Podia ser sobre São Paulo ou sobre Salvador. Mas também não podia. É um filme contemporâneo, sobre questões contemporâneas de presente e de memória, situado (e muito bem situado) na cidade de seu realizador, Kleber Mendonça Filho.

Não achei nada de menos de “O Som ao Redor”. Nem demais. Não entendi (ou entendi bem demais) a onda de comentários sobre o filme: imperdível, maravilhoso, “um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo” (como disse Caetano em comentário no O Globo de título “Belo é o Recife”)… É um filme em que a atuação peca pela falta, não pelo excesso – e isso é um grande, um enormessíssimo mérito. Isso traz beleza. Mas é só.

Em uma cinematografia dominada pela necessidade de sistematização, padronização, estetização (com o Estado discutindo o que é comercial…), concordo que o filme é um respiro. Justo no Brasil, onde vivemos nos perguntando por que o cinema daqui não é igual ao cinema da Argentina – porque o cinema da Argentina fala de lá, com o jeito de lá. Em outras palavras: verdade.

O Brasil tem tanta falta de verdade nos seus filmes que um filme que se mostrou verdadeiro gerou suspiros entre críticos e público. Realmente, o Brasil precisa parar de tentar fazer certo, e começar a fazer bem. De tudo, “O Som ao Redor” deixa essa lição para o cinema nacional: que na nossa tragédia e comédia, é belo o Brasil.

O risco de ficar grande, o medo de permanecer pequeno

Já correu por aí que o carnaval de São Luiz do Paraitinga terá esse ano, além de tenda fechada com abadá, atrações de funk a música eletrônica. Contrariando a tradição de um carnaval de rua e de marchinhas (marchinhas próprias, deliciosas, que falam da tradição da cidade e de seus moradores), a Prefeitura Municipal fechou um patrocínio com a Skol, que decidiu dar aos foliões uma “alternativa” à música da cidade.

A primeira vez que fui a São Luiz foi em 2005. Os blocos eram moderadamente cheios, e a praça ficava vazia. Fazíamos o percurso pulando como loucos, voltávamos à pracinha, onde caixas de som ecoavam marchinhas de outros carnavais. Em pouco a praça virava palco para os grupos, entre o coreto e a escadaria da igreja matriz. A tradição musical é tão grande que a cidade e suas bandas vivem apenas das marchinhas locais. Os blocos mantém-se os mesmos, e os “hits” de cada ano são escolhidos e lançados em um festival de marchinhas, realizado todo janeiro.

Aprendi naquele ano o que era carnaval – algo que até então não tinha vivido. Fomos os quatro anos seguintes a esse, aumentando a turma e o entusiasmo. Colecionei – e ainda coleciono – os CDs de lá, que falam sobre as ruas, a chuva, o coreto, a tradição de cada parte de São Luiz (São Luiz é pequenininha que cabe toda no coração da gente). Trouxe novos amigos, ensinando sempre a eles os mandamentos do folião. Regra número um: é proibido durante o carnaval luizense qualquer outro ritmo que não seja marchinha. E tinha fiscalização, pelos próprios foliões.

O passar dos anos trouxe naturalmente mais gente para a cidade. A [pinga] “com mel” (vendida nas janelas das casas) aumentou. Os blocos encheram. A praça lotou. Os alugueis ficaram mais caros, os campings proliferaram. A publicidade aumentou, atraindo também quem não gostava de marchinha. Encontrei uma amiga na rua: “ouvir marchinha é ótimo, mas até o final do carnaval cansa, né?” Pra gente, que ouvia os quatro dias, mais uns três meses depois, não.

Não dava mais pra pular o Barbosa, começamos a sair no Cordão da Samaritana – sem trio, banda pequena, som suave e percorrendo circuitos alternativos batendo o pé no chão. No ano seguinte nem a praça mais não funcionava. Como um aglomerado de gente, perdeu a função de ponto de encontro. A banda ficava tão longe que não dava pra ouvir – e haja perder chinelo no chão grudento e sujo da praça.

No quarto ano: os vizinhos deram pra cantar pagode, e justo a música do pimpolho. Reclamei e invadiram a minha casa. “Mas a regra aqui é só tocar marchinha!” e eles respondiam: “a gente não está no centro, não desceu pra cidade, estamos em casa”. Sintomático. E triste. O carnaval se popularizou a um ponto em que os foliões não desciam mais pra cidade. E se eles gostavam de marchinha no começo do carnaval, agora nem no começo queriam ouvir (aliás, é possível que nem tenham passado por São Luiz). De 10 mil foliões passou para 50, 80, 100 mil…

Vivemos numa sociedade em que atingir as massas importa mais que a autenticidade, em que a grana vale mais que a Cultura (aliás, acho que ninguém nem sabe mais o que é cultura, virou um termo abstrato pra preservar tradições que, na cabeça dos avançadinhos, deveriam se modernizar). Abrir o espaço para uma empresa, uma tenda com abadá, não vai trazer mais visibilidade para a cidade. Deveriam era fazer o contrário: voltar as regras mais duras, abrir um memorial – que cada visitante entenda a história do carnaval e da cidade de São Luiz. E afastar de vez quem não quer ou não gosta de marchinha. Que cada visitante, como eu no meu primeiro carnaval, como os amigos que eu levei depois, possam deslumbradamente carnavalizar-se e dizer: entendi.

São Luiz não precisa de mais investimentos para crescer. Ela precisa de mais investimentos porque cresceu demais. E precisa de coragem para se afirmar não como um grande evento internacional, mas como um pequeno carnaval regional de rua. O que São Luiz precisa é não ter medo de permanecer pequena – sob o risco de ser completamente perdida. Quando todos os grandes centros: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e agora São Paulo, estão se esforçando por retomar um carnaval de rua arrancado de nós e trocado pelo carnaval regrado das avenidas, São Luiz do Paraitinga deve dar o exemplo. E continuar nos ensinando o que é carnaval.

Férias

Quem for a São João Del-Rey – MG não pode deixar de visitar o Memorial Tancredo Neves, ali pertinho da igreja de São Francisco de Assis. Entre objetos e fotos do ex-presidente, conta-se um tanto da história do Brasil. Somam-se aos objetos vídeos com imagens emocionantes das Diretas Já e da vigília que se seguiu à tomada de posse (contaram-se daí 38 dias até sua morte, dando lugar ao vice José Sarney) – recomendado aos fracos para emoções, como eu, que saem com lágrimas entre a esperança e o luto, de um Brasil que poderia ter sido e que não foi. À saída do Memorial, o simpático Tancredo, ele próprio, sentado em um banco – só que em bronze –  recebe sorridente os visitantes. Curiosamente, as pontas de seus sapatos e o nariz estão desgastados de tanto serem tocados.

Entre Salvador e Minas Gerais, visitei Jorge Amado, Tancredo Neves e o poetinha. Vinicius, velho, Saravá! Sempre achei essas estátuas meio indignas (não me venham com fotos com o Drummond!), mas agora estão elas a se proliferar. É um novo conceito: as pessoas se identificam com o monumento, e os homenageados podem ir direto para o instagram. No Rio de Janeiro, certa vez vi uma senhora dizer “E aí Caymmi!” ao passar pela estátua à orla da praia em Copacabana, batendo-lhe cordialmente na mão erguida. Caymmi ficou – mão erguida no ar, sorriso no rosto, eternizado no cumprimento.

A estátua de Jorge Amado, inaugurada dezembro passado em Salvador traz, além dele e de Zélia Gattai, o cachorrinho pug do casal (que mereceu homenagem em bronze) entre o acarajé de Dinha e a vista para o mar do Rio Vermelho: dá mesmo vontade de sentar para prosear. Confesso que eu mesma me maravilhei quando, ao chegar à biblioteca municipal de Belo Horizonte (ano passado, tendo visitado pela primeira vez a cidade) dei de cara com o Fernando Sabino, rodeado por seus companheiros Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Encheram-me os olhos, reforçando minha visão romântica de que tudo na cidade conversa com a obra dele. (E conversa.)

Mas em termos de estátuas a mais digna é sem dúvida a de Vinicius de Moraes, que tive a chance de visitar perto da praia de Itapuã: a cadeira de bronze está lá, ao seu lado, mas o poetinha já avisa com o olhar que não quer que ninguém sente pra posar pra foto.

E saiam já da minha praça!

 

Depois eu saio também

Semana passada, então, fui dormir na casa dos meus pais. Minha mãe disse “LAURA!” e algo depois como “boa noite”, “vou abrir sua janela que está calor!” ou qualquer outra coisa que não vem ao caso. Tomei um susto daqueles, reagi com exclamações. Ela respondeu calmamente:

– Laura, o que você estava lendo?

“O VENTO fresco da madrugada entrou pela janela e veio suavemente tirar-me do sono. Sem abrir os olhos, o corpo imóvel, percebi que havia acordado. De súbito o sangue gelou-me nas veias: senti uma presença dentro do quarto. Uma presença macia, envolvente, feita de silêncio e escuridão. Abri finalmente os olhos – o silêncio se abateu sobre mim e a escuridão ficou maior. Por um instante não tive forças de me mexer e era como se eu estivesse morto, envolto em mortalha. Desfiz-me afinal dos lençóis e levantei-me de um salto, avancei precipitadamente para o interruptor da luz junto à porta. Quando meus dedos ansiosos tateavam na parede, pousaram de leve em algo frio, áspero e crispado, que vinham a ser exatamente os dedos de uma outra mão.

ESTA história evidentemente não aconteceu comigo, nem com ninguém. Acabei de inventá-la, para desafiar a sensação de insegurança que me deu de repente, ao ver-me aqui sozinho em meu quarto, em plena madrugada, escrevendo esta crônica.”

Nessa hora minha mãe entrou no quarto dizendo “LAURA!” e qualquer outra coisa que não vem ao caso.

O trecho está no livro “No fim dá certo”, de Fernando Sabino, na crônica “Viver é perigoso”. Comprei-o semana passada em um sebo, e entre “De cair o queixo” e “Sob o manto da fantasia”, aconteceu-me a coisa mais extraordinária que pode acontecer a alguém com pretensões literárias (ou quase): encontrei uma carta.

Tinha ido diretamente à estante de literatura brasileira, e pegado apenas o “No fim dá certo” – cópia muito bem conservada e que eu ainda não tenho, dois atributos raros para as publicações do Fernando Sabino (muito numerosas) em sebos. Levei-o como uma preciosidade ao caixa (a carta ao meio). A mulher olhou o código (a carta vai cair…), a mulher me olhou com um sorriso. “Esse aqui, olha lá, tem na promoção de dois a cinco reais. Não quer ver lá?” No cantinho subindo as escadas. Mas eu não queria, queria era aquele! Voltei ao caixa um pouquinho depois. “Não encontrei (não encontrei, realmente) levo esse mesmo”.

Guardei o livro aflita – com medo ainda de que a vendedora reivindicasse a minha carta. Minha. Envelopada, selada, com remetente de Milão e destinatário de Pinheiros (os selos, ambos de Milão), duas páginas manuscritas em papel de seda, em francês. Não a peguei mais, com medo de manchá-la com as mãos sujas da rua, depois de molhá-la com respingos de chuva (nesse dia choveu).

Finalmente a li, com alguma dificuldade entre o manuscrito e o francês. Quando repeti que me acontecera a coisa mais extraordinária no sebo, já anunciava o pragmatismo da minha mãe: “às vezes também não é nada”. Datada de 1999, Milão, um senhorzinho reclamando da artrite, agradecendo ao outro por ter pago um imposto, e mandando lembranças pra outra senhora, também doente. E não era. Pelo menos o livro era bom.

Melhor do que isso só quando li na contracapa de O Gato Sou Eu (aliás, livro do Sabino que na ocasião não comprei e que não tenho até hoje): “Seguinte: o Paulo vai ligar sem ficha. Você espera 5’ e sai. Depois eu saio também”.

Roteiros e o mercado: uma análise jornalística

Há algum tempo que, quando digo que sou roteirista, as pessoas me respondem entusiasmadas: “está crescendo muito o mercado de roteiros, não é?”, “eu li que a produção aumentou muito, agora com a nova lei das TVs a cabo…” A princípio ponderava que não é bem assim, que de cara o que aumenta é a compra de filmes. De preferência comédias de grande público. Depois a procura a grandes produtoras (que já tinham um pé na produção independente, e uma porta de entrada nos canais). Depois por conteúdos que venham prontos, formatados e embalados. E só depois, talvez, com sorte, é que veremos uma valorização do roteirista em si. Com o tempo passei apenas a acenar com a cabeça, sem entrar em maiores discussões.

Essa semana a Folha Ilustrada publicou mais uma matéria sobre o tema, que suscitou em mim mais perplexidades. Com título otimista “Nova lei da TV paga aquece mercado para roteiristas no Brasil”, é um desfile de descabimentos e clichês para falar do mercado e do profissional de roteiros. No meio de obviedades e outras babaquices programadas, como “é essencial [para o roteirista] ser devorador de livros”, comenta que os roteiristas são profissionais cada vez mais cortejados (termo deles) pelos canais e faz um chamado àqueles dispostos a trabalhar. Para falar da valorização atual do mercado, cita a agenda cheia de Bráulio Mantovani e Jorge Furtado (nunca vi, por exemplo, procurarem a agenda de Niemeyer para saber como andava o mercado de arquitetura no Brasil).

É, uma vez mais, um reforço de que o mercado está em falta de roteiristas – principalmente os qualificados para a nova empreitada. É a típica visão que quando mencionada em discussões e conversas por aí normalmente vem acompanhada por um “há sim roteiristas. É que não há roteiristas bons.” Pois vos digo, e sem nenhum receio, há sim roteiristas: roteiristas bons, roteiristas ruins, roteiristas lotados de trabalho e outros esperando para começar. Como toda área, se for considerada como mercado e profissão. O que (ainda) não é.

O próprio Bráulio Mantovani, no bloco final, desmente a afirmação da matéria sobre a profissão: “’Tudo tem dois lados. Paga-se muito mal a roteiristas no cinema, principalmente quando se leva em conta o tempo de dedicação ao trabalho’, avalia ele. ‘Os roteiristas são obrigados a se envolver em vários projetos ao mesmo tempo e, se nenhum dá certo, você fica sem trabalho. Já aconteceu comigo.’” E, no último parágrafo (último mesmo, lá bem depois do intertítulo), tiveram coragem de publicar finalmente – em frase de Roberto d’Avila – “O que há agora é uma excitação grande no mercado, mas não vejo mudança de postura. Há muita produtora procurando projetos prontos e poucas investindo na formação de quadros”.

A lei muda o mercado sim, há mais produtoras interessadas e procurando conteúdos, e abre-se uma janela sem precedentes para valorizar o trabalho de roteirista no Brasil. Mas dar a entender que isso dá acesso a um reino encantado, em que todos os roteiristas terão emprego, sucesso e felicidade é, mais que uma ilusão, uma lenda (e muito bem contada). O que essa e outras matérias fazem é uma mistificação da profissão, que é justamente o que a profissão não precisa agora. Quando as afirmações finais da matéria chegarem ao título, poderemos dizer que, sim, o mercado para roteiristas mudou.

a Laura Barile que eu não poderia ter sido – e que não fui

Sempre achei que fossem poucas (pouquíssimas) as Lauras Barile no mundo. A mais conhecida é uma professora universitária na Università de Siena (faculdade de letras e filosofia). O nome dela foi mandado numa cápsula para o espaço, o que muito me lisonjeou.

Certa feita recebi um e-mail inteiro em italiano, pedindo com urgência minha foto para uma publicação. Respondi atentando para o fato de ser brasileira, embora Laura Barile, e fui tratada com toda delicadeza por ter desfeito o mal entendido. Azar. Perdi uma chance e tanto de ter uma foto minha em uma publicação na Itália.

Resolvi fuçar as Lauras no facebook. Exclusivamente Laura Barile, sem outro nome ou apelido, e só as que tivessem foto. Ao contrário do que eu pensava, há muitas. Vi uma Personal Trainer Owner of Laura’s BodyShaping e comecei a pensar em como podia ter sido minha vida.

Se não fosse eu, mas Laura Barile, pra começar eu seria italiana. Há Laura Barile em Fórmias, Giussano, Palermo… A que usa saia balonê vermelha tem dois gatinhos filhotes. A de Bari tem como perfil a foto de um beagle (sempre fui fascinada por beagles). Curte Isole Tremiti, vielas em flor e pessoas com fotos de cães.

Uma só é espanhola, trabalha no Standard Bank e tem um namorado parecido com o Javier Bardem. Só que feio. Lolly, de Palermo, está em um relacionamento enrolado. A do Okhlahoma está desanimada na foto, acompanhada por um namorado ainda mais desanimado que ela. Alguém comenta “you guys look happy together”. (o relacionamento começou só em novembro)

Com um cachorrinho branco escorrido chamado Jack e aparência feliz, uma delas é perturbadoramente parecida com a minha família. Outra só deixa vermos uma foto: “La mia splendida famiglia!!” (todos de óculos assim como eu). Uma criança de Quebec com pintura na testa anuncia o facebook da mãe – ou tia? – Laura. A adolescente é obcecada por Harry Styles e Justin Bieber. A criança, de Nápoles, faz o sinal de vitória com uma fatia de melancia na mão. A adulta de Nápoles fuma e tem uma tatuagem no ombro.

casou em outubro de 2009, casou em julho de 2010…

A Laura de Milão trabalha em um Hospital e acha que amar é viver. Também repassa mensagens sobre serenidade, e uma frase de Confucio que não entendi (italiano que sai da Mooca eu não intendo, bela!) “chi ascolta dimentica, chi vede ricorda, chi fa comprende (e impara)”. Foi a que eu mais gostei. Tem dois filhinhos e um mochilão.

Ou: como se contamina o mundo de amor?

Há algum tempo repassaram pelo facebook – daqueles fenômenos em que mais de 5 conhecidos repassam um mesmo texto e você para pra olhar: Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Sentem-se em casa em qualquer lugar. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor e compram passagens só de ida…” Abaixo do texto grifado, ainda podia-se ler, “Para os rotuladores de plantão, um bando de inconsequentes. Ou artistas, o que dá no mesmo” – autoria de Martha Medeiros.

Todo mundo no facebook repassou dizendo: “isso, eu sou assim!” e eu pensei: “ou eu tenho muitos amigos artistas, ou, mesmo, o mundo tá mudando”. Acho que o mundo tá mudando.

Lembrei desse trecho/episódio porque vi, essa semana, uma palestra sobre a “mudança de valores na sociedade pós-moderna”, na Palas Athena – uma associação maravilhosa que faz a gente imaginar que um mundo melhor é possível e que a humanidade está caminhando. “Nós estamos nesse momento em que valores modernos continuam a ser oficiais mas perderam a sua força de atração.” O palestrante, Michel Maffesoli, um professor da Sorbonne de gravata borboleta, sorriso no rosto e incrível didática e reflexão (na França, em Paris, ele é diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano e do Centro de Pesquisa sobre o Imaginário). “O indivíduo (indivisível), na sociedade pós-moderna dá lugar à pessoa plural, com identificações múltiplas.” Explica bem a necessidade desesperada de afirmação de que, sim, mudamos de uma profissão para outra, de uma experiência para outra e estamos bem com isso – estamos em um momento de transição.

“Nós não vamos mais mobilizar a energia em torno da palavra trabalho, mas sim em torno da palavra criação. Na pós-modernidade, vamos retomar essa bagagem (o onírico, o lúdico, o imaginário, o festivo) e, como disse Nietzsche, fazer da vida uma obra de arte”. Voltei da palestra preenchida e interessada – desvendar mudanças é dessas satisfações que nos fazem perceber um pouco mais, e melhor, o que já intuíamos do mundo – tudo para, menos de hora depois, me deparar de novo, e infelizmente, com o facebook. Explodiram assuntos nesse mês na internet (ou estiveram escondidos pelas minhas escolhas de amigos, de grupos, pela minha leitura seletiva do mundo?). Defesa da redução da maioridade penal, situação de guerra entre PCC e PMs, extermínio nas periferias, gays equiparados a cabras e espinafre…

No caso específico – e especificamente recente – da nomeação pelo Grão Chanceler Dom Odilo Scherer da terceira colocada nas eleições a reitor da PUC-SP (minha casa por 4 anos de jornalismo, e antes, pelos 5 anos de psicologia da minha irmã), quebrando longa tradição democrática, não consegui sequer entender as reações. Tentei não ler os comentários nas matérias jornalísticas (o que já é de grande adianto), mas manifestações nas páginas de amigos (em comentários de desconhecidos próximos) não passam em branco. Lembraram-me o coronel Erasmo Dias, em vídeo sobre a invasão da PUC que comandou em 1977, esbravejando que os alunos eram “baderneiros”. O desconhecido próximo, para defender seu ponto de vista contra o processo democrático na Universidade – “E de onde surgiu a ideia estapafúrdia de que escola deve ser democrática?” – usou uma comparação sintomática (classificando-a como caso de estupidez): que ovelhas pudessem escolher seu pastor. Infeliz exemplo – excelente imagem.

Almeidinhas proliferam às vezes entre os mais conhecidos: um tio, um vizinho ou – para nossa indigesta surpresa – um colega de faculdade, sempre com comentários ferozes. Falam de tolerância com comentários intolerantes. Rebatem a boa educação defendendo a falta de democracia. Acham que o sonho não existe e tudo que não é útil deve ser deixado pra lá. Seguem, ironicamente e sem perceber, como ovelhas de só um rebanho.

Almeidinhas detestam as novas configurações da pós-modernidade, acham que o autoritarismo (esse vertical: um manda outro obedece) é a base das boas relações no mundo. Mas os comentários de conservadores a ultra conservadores revelam mais que ideologia (antes fosse, eu diria!): são manifestações do mais puro medo. Medo das configurações que despontaram (e que nem por serem novas são ruins). É preciso que se note – estamos em um momento de transição. E mudanças geram reações violentas – por parte de quem não quer, ou acha que não deveria mudar. Retomo o professor Maffesoli “o fim de um mundo não significa o fim do mundo”. Ou: como se contamina o mundo de amor?


Para entender a situação da PUC, sugiro: A Dom Odilo Scherer: Perplexidades | Jorge Claudio Ribeiro
Para entender a história das cabras: Veja que lixo! | Jean Wylys
E para entender tudo isso: “Direitos humanos para humanos direitos” | Matheus Pichonelli / Carta a um Almeidinha ressentido | Matheus Pichonelli