Manual de pequenas crueldades

(em tempos de transição)

 

Um casal divorciou depois de uma década juntos. Tudo amigavelmente. No dia seguinte ele estava com outra. Não tinha problema nenhum: aconteceu, essas coisas tem que ser vividas, não era traição. Mas na hora de contar para a ex, melhor segurar: não queria, afinal, ferir seus sentimentos. Uma coisa é fazer. Outra coisa é contar. E ela, por certo, devia estar se arrastando pelos cantos, sofrendo, devastada pelo término – o que cabe à mulher. Mulher é frágil demais.

Em um ônibus na avenida Paulista, um passageiro viu que a moça ao seu lado dormia e passou a mão nos seus seios. Mulher não repara. (Repara?) Ou se repara não liga. (Liga?) Ou se liga, não fala sobre isso.

Uma amiga foi a trabalho em um trajeto longo de metrô. Foi assediada três vezes no caminho, me contou. Numa delas, enquanto um Senhor falava lascivamente o quanto ela é linda, interrompeu-o de forma dura perguntando onde ficava a rua em que precisava ir. Ele desmontou: “Puxa, você falando assim direto comigo, eu não esperava… eu tô até tremendo”. Mulher que se coloca assusta.

O motorista de Cabify me falou que eu tinha “cara de neném” e me perguntou o que eu estava achando dos ‘meninos’ de BH, em comparação aos ‘meninos’ de São Paulo. Falei que sou casada e ele se retratou: “Então muda a pergunta: o que você está achando da cidade, está gostando daqui?” Mulher a que se deve respeito é a casada.

Ainda sobre o casal divorciado, uma amiga deu um toque que a atitude era machista (vá lá, também um pouco covarde). Vê-se que a notícia correu. Nessa semana, um desconhecido comentou numa mudança de foto de perfil dele “que foto machista”. Alguém completou “egoísta e infantil”. E no meio de risos “acho que você não tá respeitando a foto antiga”. Mulher atentar para uma atitude do homem é risível – em rodinha e em púbico. Mulher exagera.

Dentro de um ônibus municipal, passando pela avenida Paulista, no mesmo dia do ocorrido do assédio (e no mesmo dia de centenas de outros ocorridos de assédio, em centenas de outros lugares da cidade), um rapaz tirou o pau pra fora e gozou no pescoço de uma passageira – desconhecida. Foi levado pela PM. Com 17 tentativas de estupro na ficha , foi solto no mesmo dia. O Juiz sentenciou “Entendo que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada no banco de ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação do indicado.” Afinal, não foi tão grave assim.